Pensamento político de Weber e apontamentos sobre o texto “Parlamentarismo e governo numa Alemanha reconstruída”

            Max Weber é conhecido amplamente pelas suas categorias de análise e pela sua luta por uma ciência ao máximo possível objetiva, axiologicamente neutra. No entanto, não é comum reconhecer que esse grande sociólogo alemão também argumentava que nem a ciência nem a especulação poderiam produzir valores e princípios sociais. Para ele tais valores deveriam ser construídos pelos indivíduos, seja pessoalmente, seja em nível político-social. Dessa forma, temos um cientista que demarcava bem os limites da ciência e da política. Outro fato pouco conhecido é de que Weber possuía uma vida política ativa e um pensamento político singular.

            Kalberg (2010) resgata alguns fatos biográficos de Weber que nos apresentam sua atuação política. Ainda na juventude Weber participa de Congressos Sociais mundiais, viaja e integra debates intelectuais e políticos por várias partes da Europa. Em 1908 publica artigos de jornais criticando veementemente a prática de universidades alemãs de se recusarem a dar promoção a professore socialistas, apesar de ele não se considerar socialista. Entre 1910 e 1912 discursa contra a ‘biologia racial’ na Associação Sociológica Alemã, bem como defende um nacionalismo não-autoritário e livres de valores. Entre 1915 e 1916 critica anexações territoriais por parte do Estado alemão, critica o crescimento do belicismo internacional e defende uma área de livre-comércio na Europa. Em 1918 ele integra a comissão fundadora do Partido Democrático Alemão, de cunho liberal, e faz campanha eleitoral para conseguir uma cadeira na Convenção Constituinte, mas perde. Defende um constitucionalismo para a Alemanha e incentiva a abdicação do Kaiser. Em 1919, um ano antes de sua morte, ainda chega a integrar a deleção alemã à conferência sobre o Tratado de Versalhes. Esses fatos, entre muitos outros, nos mostram um Weber atuante politicamente, um liberal defensor dos direitos humanos, um nacionalista crítico e um defensor da democracia. observare.slg.br

            Weber (1980) busca analisar e ao mesmo tempo se posiciona quanto à estrutura política da Alemanha de sua época. Ele faz uma reflexão crítica, buscando analisar os aspectos participativos e burocráticos da política nacional e do Estado, sobre o eminente parlamentarismo, política partidária e funcionalismo burocrático do Estado. Weber constrói uma reflexão e análise a partir da atuação centralizadora e autoritária de Otto Von Bismark, primeiro ministro do 2º Reich Alemão, entre 1871 e 1890.

            Bismark ficou conhecido pela gestão autoritária, pela política da força e pela Kulturkampf (uma cruzada cultural contra a influência católica). Um chanceler que governou mal, na visão de Weber, e por fim, teve que ceder ao centro-católico liderado por Ludwig Windthorst quando de sua renúncia em 1890. A partir da narração de Weber, percebe-se que Bismark organizou um governo centralizado, com pouca autonomia às instituições, forte militarização e com estímulo à um Estado corporativo e dominante. Houve, em sua gestão, um claro isolamento dos partidos de esquerda e da social democracia, bem como dos sindicatos e outras instituições populares. Além disso, uma desvalorização ao Reichstag (parlamento alemão da época) como um todo. Bismark descaracterizou a vida política. Reduziu e amesquinhou a organização política. Centralizou e retirou poder de influência e agência das instituições sociais e políticas o que incomodava profundamente a Weber.

            Uma pergunta importante seria “Qual foi então o legado de Bismark no que aqui nos interessa? Ele deixou atrás de si uma nação sem qualquer sofisticação política […] deixou atrás de si uma nação sem qualquer vontade política própria” (WEBER, 1980, p. 14, grifo do autor). Weber ainda continua e afirma que “O grande estadista não deixou nenhuma tradição política. Ele não atraía e nem mesmo tolerava cabeças independentemente políticas […]” (WEBER, 1980, p. 15). A crítica que Weber faz a atuação política de Bismark é um excelente exemplo para se compreender como ele entende política: algo complexo e que se faz a partir da participação e ação de múltiplos interesses e agentes e tendo na figura do político uma liderança que seja portadora e promotora de valores sociais (KALBERG, 2010). Um estado corporativo, uma burocracia independente e uma gestão autoritária e travada, seria na visão weberiana, algo prejudicial e incapaz de produzir avanços societários. observare.slg.br

            Uma segunda parte deste texto sobre o parlamentarismo caminha numa relação entre burocratização, modernização e capitalismo. Ele considera “O ‘progresso’ em direção ao Estado burocrático julgando e administrando segundo o direito e preceitos racionalmente estabelecidos que tem hoje em dia estreitas relações com o desenvolvimento capitalista moderno” (WEBER, 1980, p. 17). Weber ainda vai tratar da relação entre burocratização, partidos políticos e administração pública. Vai criticar o afastamento do político da vida administrativa e pensar esse processo como prejudicial.

            Weber percebe o debate e o confronto no campo da política como algo inerente, pois para ele “política significa conflito” o que acaba por ser neutralizado por uma “organização burocrática racional, funcional e especializada de todas as formas de dominação, da fábrica ao exército e à administração pública” (WEBER, 1980, p. 22-23), por isso a necessidade de ajustes estatais que possam fazer fruir esse conflito da forma mais pacificada e proveitosa possível.

            Nesse ensejo, é que Weber provoca uma longa consideração e debate sobre parlamentarização e democratização da Alemanha. Entra em detalhes e compõe uma discussão rica e extremamente atual, sobretudo se forem ressaltados os princípios que ele apresenta: (I) política como conflito regulado, (II) garantia de liberdades individuais, (III) garantia de espaço para as lideranças políticas, que são (e devem ser) portadoras e mobilizadoras de valores. A partir daí é que ele faz considerações sobre o sufrágio universal, sobre o voto, censo, demagogia, lideranças governamentais entre outros elementos. Ele busca refletir sobre a necessidade da tensão entre participação e burocratização, entre meios políticos de controle e atuação política livre e sobre os efeitos corporativos e englobantes de uma tendência racionalizante e burocrática da política, e da vida como um todo, questões também presentes na obra A política como vocação.

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REFERÊNCIAS

KALBERG, Stephen. Max Weber: uma introdução. Rio de Janeiro: Zahar, 2010.

WEBER, Max. Parlamentarismo e governo numa Alemanha reconstruída. 2. ed. São Paulo: Abril Cultural, 1980.

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COMO CITAR ESTE TEXTO

 SANTOS, Harlon. Pensamento político de weber e apontamentos sobre o texto “parlamentarismo e governo numa Alemanha reconstruída”. [s.l.]: 2018. Blog Observare. Disponível em: < http://observare.slg.br/2018/03/30/pensamento-politico-de-weber >. Acesso em: dia mês abreviado. ano.

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